sábado, 3 de abril de 2010

PÁSCOA

Não tenho escrito por falta de inspiração.
Ainda tenho muito a contar, duas estações inteiras.
Faz dois meses que não vago pelas ruas e, diariamente, tomo meu café preto com pão e manteiga.
Embora eu não esteja na rua, ainda me sinto no meio-fio... 
Quero do coelhinho amigos verdadeiros, que tragam no seus cestos respeito, sinceridade, carinho e bem-querer... Um bom emprego e um canto prá chamar de meu... e saúde, muita saúde, é claro!

Balaio

Nega o que que tem no balaio
No balaio tem de tudo que alegra o coração
Divise o seu conteúdo e fique quase mudo
De estupefação
Mas precisa ser sensível se quiser apreciar
Fica tudo indivisível a quem não sabe sonhar
Ouviste nego
Nega que tem mais nesse balaio...
No balaio tem carinho tem ternura e devoção
Tem cantar de passarinho abraço beijinhos
E muita paixão
Tudo isso ocupando o balaio até o meio
O amor vem completando e o balaio fica cheio
Ouviste nego
Nega
No balaio tem chamego e também cafuné
Tem calor e aconchego e muito sossego
Se você quiser
Está cheio volumoso tá querendo transbordar
Esperando ansioso pra você esvaziar
Ouviste nego
Nega que tem mais nesse balaio

                       Itamar Assumpção





terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

RINDO DA PRÓPRIA DESGRAÇA

Ainda a castelhana...
Ela gostava de intimidar a todos, inclusive a mim, dizendo que fazia macumba... andava sempre com cartas ciganas, tarot, guias e outras coisitas más.
Um dia me irritei e disse a ela que só tem poder aquilo a que damos poder e que não tinha medo do que ela poderia fazer!
Ela acalmou comigo, me pagou uns cafezinhos pretos de manhã cedo e me presenteou com um baralho de cartas ciganas.  Tentei ler meu futuro, mas não tive o mínimo talento pra coisa.
Certa manhã,  ela me deu uma moeda de R$ 0,25 e, solenemente, sentenciou:
- Guarde-a. Não gaste, use-a como a um talismã, mamãe Oxum vai te ajudar.
- Arre! Tô sem nada de dinheiro, é claro que vou gastar!
- Está bem, faça como quiser, ela te ajudará de qualquer maneira.

Saí, fui ao posto de saúde. Lá ganhei meu Kit Natal que eu não havia pego. Sabonete, creme dental, barbeador e outras coisinhas. Vendi o creme dental e um desodorante masculino.
Vendi, também, uns selos do Diário Gaúcho com valor maior que o geralmente pago. Somando tudo, consegui uns R$ 2,50. Dez vezes mais que a moeda-talismã.
Tomei meu café preto com um croassant de goiabada e fiquei pensando:
- Tanta alegria por dois pilas, jamais imaginei!


Nessa nova padaria espiritual
Nessa nova palavra de ordem geral
Eu faço o pão do espírito
E você cuida do delito
De comer, de comer
Onde e como cometer

   Ednardo

sábado, 6 de fevereiro de 2010

TRILHAS



Urgência de ser eu mesmo,


cansaço de não me achar,


as rugas fizeram mapas


de não saber procurar.


corpos de tantas miragens,


versos de pouco dizer,


será que jamais me acabo


para, de novo, nascer?





Alberto Cohen

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

COLORÍN COLORADO ESTE POST SE HA ACABADO

Não fui à padaria por alguns dias, estava sem dim-dim.  Acabei não escrevendo nada direito. Além disso, passei uns dias na casa de uma pessoa, aquela do ano novo. Três dias sem aparecer no albergue despertou a curiosidade dos viventes (ou, melhor, desviventes. Afinal, é assim que me sinto: desvivendo).
Vou contar pra vocês, mas tenho que começar pelo começo.
Um certo dia, ao chegar no albergue, uma moça, do tipo que não possui ovário nem útero, tenta aproximar-se de mim.  Sua colega diz: 
-não fala com ela,  ela é princesa!
A biba não deu bola e se aproximou.
Eu deixo. Sou do tipo receptiva. Ela fala em castelhano. A maioria não entende. 
A partir daí, ela andava atrás de mim. Esperava eu sair, pela manhã, para fazer comigo a volta na quadra até a Convivência. Queria passear comigo durante o dia, eu despistava. À noite, eu chegava e ela já se postava ao meu lado contando como havia sido seu dia. E fazia de tudo pra chamar a atenção. E assim era até a hora de dormir. Em quartos separados, pois o albergue possui um quarto para transexuais.
Fiquei sabendo por um usuário, pelo qual tenho simpatia, que ela havia tascado a mão em suas partes íntimas... em plena Voluntários da Pátria, enquanto iam, em grupo, para o albergue no Navegantes.  Ele estava indignado e eu me segurando pra não dar uma gargalhada.
Uma noite ela chamou uma albergada de macaca. E na noite seguinte cuspiu em seu jantar, durante uma risada. Disse que havia sido sem querer, não creio.
Ciente de que estava juramentada de levar uma surra, sumiu.
Eu também.
Bueno, quando voltei, fiquei sabendo que eu havia sido o motivo para muitos risos. 
Dizem que ela alugou uma peça. E acham que eu estava com ela. 
O porquê da graça?
Porque acham que eu estava namorando com ela...
-Essa alemoa... 
-Não fica com ninguém... 
-Acho que ela é sapata... 
-Foi namorar uma biba...
-kákáká

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

EU E A PADARIA

Dei-me por conta que penso muito durante o dia, mas só consigo escrever quando estou na padaria.
Nela, um dia desses, encontrei um amigo não muito íntimo. Ele é artista; músico e ator. Entre um gole de café e outro, falei a ele que eu tenho muita imaginação e que ela anda pedindo espaço para a criatividade, mas que no momento só contava com papel e caneta. Nunca fui de escrever, nem bilhete. Acho a minha escrita péssima. Mas desde que vi uma exposição do artista plástico Jorge Macchi, na bienal de 2007 - o Santander Cultural todinho para ele - comecei a rascunhar pequenas coisas. A sua obra tinha me tomado, não de assalto, mas de maneira definitiva.
- Tenho uma história na minha cabeça, não sei como colocá-la no papel. Na minha cabeça ela aparece quadro-a-quadro. Sou visual. Não sei como posso roteirizá-la de maneira atraente, sedutora.
- Oficina literária?
- Não. (ele não sabe da minha situação, ainda)
- Também não acho boa idéia, quem sabe tu vais escrevendo, anotando, como primeiro passo?
Assim começou nossa conversa.
Alguns dias depois, encontramo-nos novamente, na padaria. Filosofamos um pouco e acabei lhe dando o endereço do blog.
- Estás sem enderço certo?
- Sorriso amarelo, É.

No dia seguinte, ele me procurou. Falei da situação.
Hoje almoçamos (um dia de glória, não almoçava desde o ano-novo). Falei-lhe de coisas diárias. De conversas que escuto e que não, pelo menos ainda não, comentei aqui. De que percebo que vou acabar ficando reacionária, ui! Logo eu! E ocorreu-nos a idéia de que há programas para ex-detentos, drogados, etc. mas não há programa para quem está aí, cheia de disposição e com competência para várias atividades.

Na verdade eu tinha escrito múltiplas competências, mas achei que estava me exibindo muito para quem está morando na rua, rsrsrs



Tô aqui escrevendo com o pensamento no Diário Gaúcho que está ao meu lado. Tem duas páginas sobre moradores de rua, tenho que ler... e quem sabe, escrevo para o jornalista... acabo perdendo a vergonha de me expor... dou a cara à tapa... ou ao afago, vai saber!







Obras de Jorge Macchi

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O OLHAR DE UMA UMA ESTRANHA NO MEIO II

Em novembro passado começou um programa chamado RAP - Reinserção na Atividade Produtiva - para pessoas em situação de rua, e se estenderá até meados de março. No programa há curso de pintura, de hidráulica, auxiliar de pedreiro e serviços gerais. Este último contempla portaria, zeladoria e limpeza.
Durante o curso o aluno é beneficiado com uma bolsa de R$ 200,00 por mês, mais passagens e lanche.
Me inscrevi, preciso de dim-dim.
Para o curso de serviços gerais se fazia necessário ter, no mínimo, a 6a. série do ensino fundamental.
No primeiro dia do curso ganhamos um par de tênis, um par de meias, calça e camiseta do curso.
No segundo dia, vários já tinham vendido, pelo menos, o tênis.
Após o pagamento da primeira parcela da bolsa, um mês depois do início do curso, muitos "deram no pé". Entraram os que estavam na segunda chamada. No meu curso, começamos com 25 alunos. Hoje, já inseridos os que estavam na fila de espera, contamos, em média, com 17 alunos presentes.  Semana que vem, provavelmente, esse número será inferior. Receberemos a segunda parcela.
Desses remanescentes, não vejo mais que uns três em condições de trabalhar em portaria. Além da grande dificuldade de compreensão dos temas abordados em aula, a maioria está lá para ganhar os 200 pilas.
E ficamos assim:
- As autoridades fazem de conta que estão preocupados e interessados. Tiram muitas fotos, discursam. Ganham prestígio.
- Nós fazemos de conta que também estamos interessados, e embolsamos os $200.
- Há professor que não entende essa dinâmica, e se desespera. Ganha no currículo e recebe seus honorários.


Olha o rei que balança 
O cavalo que cai
O peão que pambeia

É a roda da fortuna
Louca a girar

Renato Motha

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O OLHAR DE UMA ESTRANHA NO MEIO I

O Correio do Povo do dia 13 passado trás uma reportagem sobre moradores de rua alojados no Viaduto Otávio Rocha. O da Borges, como é mais conhecido. 
Nela, a prefeitura garante que "medidas efetivas serão tomadas ainda no decorrer deste ano". Não há referência a que tipo de medida.  O secretário de cultura lamenta a imagem negativa da situação, posto que "trata-se de um símbolo de Porto Alegre".
Ainda na reportagem, o diretor administrativo da FASC diz que "equipes volantes fazem abordagem com caráter humanitário. Apontamos opções como o Albergue Municipal ou o retorno às suas casas."
Solução simplista para um problema complexo.  Que atrativo pode ter um albergue em noites de verão, para muitas dessas pessoas? Lá, no viaduto, elas têm colchões. Podem beber e usar drogas. Alimentam-se de "macaquinhos" (alimentos deixados pendurados nas árvores e grades, acondicionado em sacolas plásticas) e contam com as esmolas dadas pelos transeuntes.
Na rua do Albergue Municipal temos situação idêntica a do Viaduto Otávio Rocha, com o agravante de a quantidade de lixo ser maior.
O ato de simplesmente recolher não é solução. O vício impede que muitos saiam da rua. Outros muitos, orgulham-se dessa situação. "Aqui é a vida de verdade", já me disseram.
Tem, ainda, quem utilize o sistema de albergues e casas de convivência achando tudo muito bom:
- Irmão (muitos se tratam assim)
- Sim?
- Dormiste bem?
- Dormi.
- Quanto pagaste?
- Nada!!!
- Jantaste antes de dormir?
- Sim!!!
- Quanto pagaste?
- Nada!!!
- E tem gente que acha a vida ruim!!!
A conversa se dá em tom de risada.
Alguns estão preocupados de que o Presidente, o Lula, venha a saber que o bolsa-família ganhou o apelido de bolsa-crack ou bolsa-cachaça, conforme o usuário, e corte a "mesada".  




onde estavas, lugar?
em que chão, em que ar?
onde fostes depois de me abandonar?
Arnaldo Antunes


*Recuperei meu caderno, deu prá notar, né?